A Numarine revelou cinco conceitos de interior para a sua Classic Line, a linha de superiates que o estaleiro de Istambul apresentou ao mercado em abril deste ano com os modelos 38XPC e 39MXPC.
O detalhe que chama atenção não é o número de projetos, e sim a forma como foram feitos. Em vez de encomendar variações de um mesmo desenho, a Numarine entregou o barco a cinco escritórios diferentes, de quatro países, e deu a cada um liberdade para desenvolver o próprio interior, com escolha livre de madeiras, pedras, tecidos e metais. O programa foi batizado pelo estaleiro de Numarine Atelier.
Os cinco são o italiano Hot Lab, o turco Ofist, o também italiano Vallicelli Design, o anglo-austríaco Sturge & Toth e o americano Carla Guilhem Design, de Miami.
O que está por baixo dos cinco interiores
Antes de falar de decoração, vale entender o que não muda de um projeto para outro.
Os dois modelos da Classic Line nasceram sobre plataformas que o estaleiro já vinha construindo nas séries XP e MXP. A arquitetura naval é de Umberto Tagliavini, e o desenho externo, de Can Yalman. Casco em aço, superestrutura em composite, classificação RINA Pleasure + e prazo de construção informado de 18 meses.
| 38XPC | 39MXPC | |
|---|---|---|
| Comprimento total | 37,90 m | 39,26 m |
| Boca | 8,02 m | 8,02 m |
| Calado | 2,57 m | 2,57 m |
| Deslocamento a plena carga | 333 t | 333 t |
| Arqueação bruta | 360 GT | 370 GT |
| Convidados / tripulação | 12 / 7 | 12 / 7 |
| Velocidade máxima | 14 nós | 14 nós |
| Autonomia | 6.000 milhas a 8 nós | 6.000 milhas a 8 nós |
A motorização padrão são dois MAN D2868 LE 425, de 800 hp cada, com opção de dois D2862 LE 427 de 900 hp em configuração heavy duty e IMO Tier III. A velocidade de cruzeiro é de 12 nós, e a econômica, de 8 nós, que é justamente onde aparece a autonomia de 6.000 milhas náuticas.
Para efeito de comparação, 6.000 milhas é distância suficiente para atravessar o Atlântico e ainda sobrar combustível. É esse número, e não o comprimento, que define a categoria em que esses barcos jogam.

Clássico não quer dizer nostálgico
A Numarine construiu sua reputação nos explorer da linha XP, barcos de aspecto robusto, quase utilitário, feitos para autonomia e para lugares remotos. A Classic Line mantém essa capacidade e troca a roupa.
O trabalho de Can Yalman foi buscar proporção e permanência em vez de citação histórica. Não há aqui a tentativa de imitar um iate dos anos 1930: o que existe é linha horizontal alongada, superestrutura recuada e uma silhueta que envelhece devagar.
O próprio designer explica o raciocínio. "Para nós, capacidade explorer não é um exercício de estilo. Tem a ver com como e onde você pode usar o barco", disse Can Yalman. "A Classic Line mantém as qualidades que são fundamentais para a Numarine: autonomia, conforto para navegação prolongada, volumes generosos, espaços práticos e uma relação forte com o mar. A diferença está na forma como essas capacidades são expressas esteticamente."
O 39MXPC se separa do irmão menor sobretudo na popa, reorganizada como um grande terraço aberto sobre a água. O 38XPC segue uma leitura mais tradicional, pensada para quem navega com tripulação enxuta.

O problema comercial que os cinco projetos resolvem
Aqui está o ponto que interessa a quem vende barco, não só a quem compra.
No superiate semicustom, a fase mais demorada de uma negociação costuma ser a definição do interior. O estaleiro apresenta a plataforma, o comprador aprova o casco, e então começa um processo longo de escolher acabamentos a partir de amostras e desenhos técnicos. É uma etapa em que muito negócio esfria, porque exige do cliente um esforço de imaginação sobre um espaço que ainda não existe.
O que a Numarine fez foi inverter a ordem. Em vez de pedir que o proprietário imagine, entregou cinco ambientes prontos e radicalmente distintos entre si, cada um com identidade fechada.
O CEO do estaleiro, Patrik von Sydow, que reassumiu o comando da empresa no fim de 2025 depois de já ter ocupado o cargo entre 2010 e 2012, coloca a estratégia nesses termos. "Permite que potenciais proprietários vejam como a mesma plataforma pode ser interpretada de formas muito diferentes, e torna o barco muito mais pessoal desde o início", afirmou. "Em vez de pedir ao proprietário que imagine como a personalização poderia ficar, estamos dando a ele cinco pontos de partida criativos fortes."
Do lado industrial, a conta fecha porque nada disso mexe no que é caro. Casco, engenharia, arquitetura naval e disposição geral continuam os mesmos nos cinco casos. A variação acontece na camada de acabamento, onde o custo de mudar é comparativamente baixo.
Cinco leituras do mesmo espaço
O contraste entre os projetos é evidente quando se olha o salão principal de cada um.
O Ofist, de Istambul, fundado em 2004 por Yasemin Arpaç e Sabahattin Emir, foi o que mais se aproximou da ideia de clube náutico: azul-marinho, couro cor de caramelo, piso em espinha de peixe e bar com espelho envelhecido. O estúdio já havia trabalhado com a Numarine no interior alternativo do 30XP.

O Hot Lab, de Milão, é o parceiro histórico do estaleiro, responsável pelos interiores do 45XP e do 32XP. Trabalhou com carvalho ripado, travertino claro e uma paleta contida, em que o desenho aparece na marcenaria e não na cor.

O Vallicelli Design, de Roma, é o mais antigo dos cinco. Foi fundado em 1976 por Andrea Vallicelli, projetista dos veleiros Azzurra, o desafio italiano nas Copas América de 1983 e 1987, e primeiro professor titular de design industrial náutico da Itália. Seu projeto aposta em curvas: teto oval suspenso, sofá contínuo e circulação sem quinas.

O Sturge & Toth, criado em 2020 por Toby Sturge e Ben Julian Toth, com bases em Londres, Antibes e Viena, levou o barco para o registro mediterrâneo: vigas curvas aparentes, tons de areia e verde-água, fibras naturais e móveis de aspecto artesanal. O escritório ficou conhecido no ano passado pelo conceito Gladius 52, apresentado no Monaco Yacht Show.

A brasileira entre os cinco
O quinto nome da lista tem uma história que interessa particularmente ao leitor brasileiro.
Carla Guilhem cresceu no Brasil, em uma família do ramo moveleiro, e estudou arquitetura em São Paulo antes de se formar em design de interiores no Istituto Europeo di Design, em Madri. Passou por Itália e Espanha, trabalhou em residências de alto padrão em Nova York e nos Hamptons e abriu o próprio escritório em Miami, em 2012.
Na náutica, sua credencial mais forte é o prêmio de melhor interior de iate no Superyacht Design & Innovation Awards da Boat International, em 2023.
Seu projeto para a Classic Line é o mais luminoso do conjunto: mármore branco de veio acinzentado do piso ao teto, metais dourados, vidro canelado e um piso geométrico que quebra a simetria do ambiente.

Ver uma profissional de formação brasileira dividindo uma encomenda internacional com escritórios de Milão, Roma, Istambul e Londres diz algo sobre o tamanho que o design náutico de origem brasileira alcançou fora daqui. É o tipo de presença que raramente aparece nos anúncios, mas que está no crédito dos projetos.
Banheiro que virou sala de recuperação
Junto dos cinco interiores, o estaleiro apresentou uma opção de bem-estar para os banheiros da Classic Line que merece nota à parte, porque mostra para onde o segmento está caminhando.
A configuração reúne iluminação circadiana, que acompanha o ritmo biológico ao longo do dia, ar filtrado, água mineralizada, sauna infravermelha, terapia de frio e chuveiros com programas de recuperação. Em vez do spa decorativo que costuma ocupar um canto do deck inferior, a proposta trata sono, energia e recuperação física como parte do projeto.

Faz sentido em um barco desse perfil. Quem compra um explorer de 6.000 milhas de autonomia passa semanas a bordo, longe de estrutura em terra, e é justamente aí que sono ruim e falta de exercício cobram a conta.
O que vem agora
A Numarine leva ao Cannes Yachting Festival, entre 8 e 13 de setembro, o 27XP em estreia mundial e o carro-chefe 40MXP em estreia europeia. A Classic Line, por ora, existe como projeto: nenhum casco vendido dos dois modelos foi anunciado publicamente pelo estaleiro.
Fundada por Ömer Malaz no início dos anos 2000, a Numarine trabalha hoje com uma faixa que vai de 22 a 47 metros e concentra sua produção no segmento explorer, onde construiu reputação com a série XP a partir de 2016.
O que a Classic Line propõe, no fim, é uma separação que o setor pouco pratica: capacidade de navegação de um lado, linguagem estética de outro, sem que uma determine a outra. Cinco escritórios provaram que o mesmo casco de aço comporta cinco maneiras diferentes de morar no mar.
Por: Redação Mundo Mar
Foto: Imagens de divulgação: Numarine







