A ENATA, empresa dos Emirados Árabes especializada em engenharia de compósitos avançados e tecnologias marítimas de alto desempenho, anunciou em setembro um investimento estratégico na Manta Foils, fabricante de sistemas de hidrofólio elétrico também sediada no país. Com a operação, a ENATA passou a deter uma participação minoritária na Manta Foils, transformando em sociedade uma parceria que já existia no chão de fábrica.
A lógica do negócio é fácil de entender e diz muito sobre para onde caminha a náutica. A ENATA já vinha fornecendo componentes em fibra de carbono para os produtos da Manta Foils, ajudando a desenvolver plataformas de hidrofólio leves, resistentes e rápidas. Agora, em vez de apenas vender peças para a cliente, decidiu comprar uma fatia dela.

O que é um eFoil, a prancha que voa sobre a água
Vale explicar essa parte, porque é o coração da história.
Um eFoil é uma prancha equipada com um hidrofólio, uma espécie de asa submersa presa a um mastro vertical, e um motor elétrico com hélice. Quando o piloto acelera, usando um controle sem fio que segura na mão, a água que passa pela asa gera sustentação, exatamente como o ar sob a asa de um avião. A partir de certa velocidade, a prancha descola da superfície e passa a deslizar no ar, com apenas o mastro cortando a água.
O resultado é uma navegação silenciosa, sem fumaça, sem esteira e sem o solavanco constante das ondas. É a mesma física do hidrofólio que os barcos de competição usam para ganhar velocidade, miniaturizada e eletrificada para caber sob os pés de uma pessoa. Ao lado dos eFoils completos, a Manta Foils também trabalha com sistemas de foil-assist, que acrescentam essa sustentação assistida a pranchas de outros usos.
De fornecedora a sócia
O movimento da ENATA é um caso claro do que a indústria chama de integração vertical: uma empresa que fabrica um componente essencial decide entrar na sociedade de quem monta o produto final.
Na prática, isso costuma acontecer quando o fornecedor enxerga que a tecnologia da parceira tem futuro e prefere participar do crescimento em vez de continuar apenas vendendo peça. Foi o que a própria ENATA sinalizou ao formalizar o negócio.
"A Manta Foils desenvolveu uma plataforma tecnológica impressionante e uma posição forte dentro do mercado de hidrofólios elétricos, que evolui rapidamente", afirmou Alois Vieujot, presidente do Grupo ENATA. Segundo ele, o investimento reflete a confiança na visão da empresa e o compromisso de apoiar tecnologias que redefinem desempenho, eficiência e experiência de uso no ambiente marinho.
Pela parceria, a ENATA seguirá fornecendo soluções em compósitos avançados e ampliará a colaboração em engenharia e pesquisa. A Manta Foils, por sua vez, passa a contar com a estrutura de pesquisa e desenvolvimento da ENATA, incluindo uma nova base em Abu Dhabi, para acelerar produtos futuros e a industrialização em escala.

Quem é a ENATA
A ENATA não é uma estreante no mundo dos hidrofólios. Sediada em Dubai, a empresa é conhecida por construir o FOILER, o iate voador de dez metros em fibra de carbono batizado de SPIRIT, um barco que se ergue sobre asas submersas e navega com o casco fora da água. Suas atividades centrais incluem pesquisa e desenvolvimento e engenharia nas áreas marítima e aeroespacial.
É desse repertório em barcos que voam sobre foils e em manufatura de precisão em fibra de carbono que a ENATA decidiu apostar cedo na navegação elétrica de menor porte, em vez de esperar a mudança chegar.
Quem é a Manta Foils
A Manta Foils projeta e fabrica sistemas de hidrofólio elétrico, dos eFoils completos às soluções de foil-assist. Também baseada nos Emirados, atende clientes em vários países por meio de uma rede de distribuição em expansão e trabalha com tecnologias modulares voltadas tanto ao consumidor final quanto ao mercado profissional.
O trunfo da empresa é uma plataforma integrada que reúne baterias, sistema de propulsão e eletrônica própria em uma arquitetura escalável. É essa base comum que permite derivar vários produtos diferentes a partir dos mesmos componentes, algo valioso para quem quer produzir em volume e reduzir custo.

Um negócio pequeno com um sinal grande
O negócio é pequeno em tamanho, uma participação minoritária, mas grande no que sinaliza.
Primeiro, mostra a eletrificação avançando na náutica de recreio pela ponta mais leve e acessível, a dos equipamentos individuais, antes mesmo de dominar os barcos maiores. Segundo, consolida os Emirados Árabes como um polo de tecnologia de foiling, reunindo em um mesmo grupo a fabricação de compósitos, a engenharia de barcos voadores e os sistemas de propulsão elétrica.
Há ainda um terceiro ponto, que olha para além do produto de consumo. As duas empresas afirmam que pretendem explorar o fornecimento de soluções de eletrificação e de componentes em fibra de carbono para outros fabricantes do setor. Ou seja, a tecnologia desenvolvida para a prancha voadora pode acabar dentro de produtos de terceiros, acelerando a transição do mercado para uma navegação mais eficiente.
A Manta Foils seguirá desenvolvendo sua plataforma, e as duas empresas já falam em novos lançamentos previstos para 2026 e além. O recado por trás do investimento é maior do que o eFoil em si: o mar do futuro tende a ser elétrico, silencioso e, cada vez mais, capaz de voar sobre a própria água.
Por: Redação Mundo Mar
Foto: Foto: Cortesia ENATA







