Quando uma embarcação como o Enejota, superiate associado a Neymar Jr., aparece nas redes sociais, os primeiros elementos a chamar atenção são inevitavelmente suas dimensões, o valor estimado, as acomodações e o heliponto.
Sob a ótica da Economia do Mar e da indústria náutica, entretanto, existe outra dimensão igualmente impressionante: a quantidade de pessoas, empresas, conhecimento e atividade econômica necessária para desenvolver um projeto dessa categoria. Uma embarcação com aproximadamente 46,5 metros pode mobilizar, ao longo de suas diferentes etapas, mais de 2 mil profissionais.
Isso não significa que todos estejam simultaneamente dentro do estaleiro. Esse contingente se distribui entre arquitetura, design, engenharia, planejamento, intervenções estruturais, instalações, interiores, acabamento, inspeções, testes e comissionamento. O verdadeiro tamanho de uma embarcação como o Enejota, portanto, não pode ser medido apenas em metros. Ele também precisa ser medido em empregos, conhecimento, renda e cadeias produtivas movimentadas.
Um dos maiores projetos náuticos de lazer desenvolvidos no Brasil
O Enejota possui aproximadamente 46,5 metros de comprimento, cerca de 800 metros quadrados de área, oito suítes e cinco cabines destinadas à tripulação. Entre os diferenciais está uma configuração considerada única, com duas suítes master. A motorização reúne quatro motores Caterpillar C32 ACERT de 1.450 hp cada, acoplados a hidrojatos de alta performance, totalizando aproximadamente 5.800 hp.
O projeto foi desenvolvido no Brasil pela Inace SuperYachts, em Fortaleza, com design atribuído ao brasileiro Fernando Almeida. Mais do que uma embarcação de grandes dimensões, o Enejota coloca em evidência a capacidade brasileira de desenvolver projetos de elevado valor agregado e alta complexidade técnica. A Inace possui mais de 55 anos de experiência, mais de 600 embarcações entregues e mais de 45 explorer yachts construídos.
De FSV a superiate de navegação irrestrita
O Enejota não surgiu originalmente com a configuração de um superiate destinado ao lazer. A embarcação era um FSV — Fast Supply Vessel, categoria desenvolvida para realizar com rapidez o transporte de pessoas, equipamentos e suprimentos entre a costa e as plataformas de petróleo. Posteriormente, o FSV foi convertido em um explorer yacht, categoria desenvolvida para oferecer robustez, autonomia e capacidade operacional em viagens mais longas.
Converter uma embarcação de serviço em um superiate significa modificar sua finalidade e integrar arquitetura, engenharia, elétrica, hidráulica, climatização, automação, hotelaria, segurança e operação. É exatamente essa complexidade que explica a mobilização de tantas especialidades ao longo de um projeto desse porte.
Arquitetos também fazem parte da indústria náutica
Um grande projeto náutico também depende diretamente de arquitetos e profissionais especializados em interiores. Em uma residência, um móvel pode simplesmente ser colocado em determinado ambiente. Em uma embarcação, ele precisa considerar peso, vibração, movimento, inclinação, umidade, salinidade e a necessidade de acesso às redes instaladas atrás de pisos, paredes e painéis. Cada centímetro precisa ser planejado.
Por isso, a indústria náutica é também uma indústria de conhecimento. O livro O Motor Secreto do Brasil, de Mané Ferrari, descreve justamente esse ecossistema, no qual design, engenharia, matérias-primas, tecnologia e diferentes ofícios convergem para criar embarcações de alta complexidade.
Uma cadeia produtiva que atravessa o Brasil
Embora a execução principal de um projeto esteja concentrada no estaleiro, sua cadeia produtiva não termina nos portões da fábrica. Motores, geradores, eletrônicos, cabos, painéis, revestimentos, vidros, mobiliário, tecidos, tintas, equipamentos de segurança e componentes especiais podem ser produzidos ou fornecidos por empresas localizadas em diferentes estados.
O setor náutico não trabalha isoladamente. Ele conecta indústria, comércio, serviços e turismo, irradiando atividade econômica para segmentos que nem sempre são imediatamente associados à produção de embarcações. O barco é apenas o produto final. Por trás dele, existe uma extensa cadeia de trabalho, renda e empresas em movimento.
Muito além do luxo
Os 46,5 metros, as oito suítes, o telão de LED e o heliponto são a parte que aparece. Os profissionais, a engenharia, o conhecimento e a renda representam a parte que o Brasil ainda precisa aprender a enxergar. Por trás de uma grande embarcação, existe uma indústria náutica inteira trabalhando.
Por: Redação Mundo Mar
Foto: Mundo Mar e IA Mundo Mar







