Quando alguém olha para um barco atracado numa marina, costuma ver duas coisas: lazer e luxo. É a leitura mais comum e também a mais incompleta. Por trás daquele casco existe uma cadeia produtiva que envolve indústria química, metalurgia, marcenaria fina, eletrônica embarcada, engenharia naval, logística, turismo e serviço especializado.
Essa é a tese que a ACATMAR, a Associação Náutica Brasileira, defende há anos: o setor náutico não é um bem de luxo, é uma cadeia econômica que gera emprego, renda, turismo e desenvolvimento. A melhor forma de provar isso é com número.
Reunimos aqui, em um só lugar, os dados oficiais mais atuais do setor, cruzando o informativo da Secretaria de Estado do Planejamento de Santa Catarina, o estudo setorial do Sebrae, os registros da Marinha do Brasil, a metodologia do PIB do Mar do IBGE e os levantamentos da própria ACATMAR. É material de consulta, feito para ser usado por quem precisa defender o setor com dado na mão.
Um barco não é um produto, é a montagem de oito indústrias
Construir uma embarcação de médio ou grande porte significa reunir, sob o mesmo teto, fornecedores de setores que quase nunca aparecem associados à náutica:
1. Motores e transmissão: motores de popa, de centro e diesel, eixos e sistemas de direção
2. Sistemas e tanques: geradores, baterias, combustível, água e tratamento
3. Cabines e acabamento: marcenaria, móveis planejados, revestimentos e colchoaria
4. Salão e interiores: cozinha, estofados, pisos, vidros e climatização
5. Flybridge e eletrônica: navegação, radar, som, antenas e iluminação LED
6. Estrutura e casco: fibra de vidro, resinas, compósitos e núcleos estruturais
7. Convés e design: teak, inox, guarda-corrimãos, ferragens e estilização
8. Pintura e revestimentos: gel coat, pintura, películas e proteção UV

Um estaleiro é, na prática, um integrador de cadeias. E é por isso que o número seguinte importa tanto.
Quantos empregos gera um barco
Cada embarcação de médio e grande porte gera, em média, 4 empregos diretos e 8 empregos indiretos, segundo levantamento da ACATMAR.
Ou seja, para cada posto de trabalho dentro do estaleiro, outros dois se abrem fora dele: no fornecedor de inox, na marcenaria, na loja de eletrônica náutica, no transporte, na marina que vai receber aquele barco e no serviço que vai mantê-lo pelos próximos vinte anos. São doze famílias por casco que sai da fábrica.
A virada de Santa Catarina: de 94 para mais de mil empresas
Este é o dado mais impressionante desta reportagem, e ele só aparece quando se compara o passado com o presente.
O Estudo Setorial da Indústria Catarinense, produzido pelo Sebrae/SC dentro do programa Nova Economia@SC, retratou o setor náutico do estado no início da década de 2010. O quadro era este:
- Em 2011, Santa Catarina tinha 94 empresas do setor náutico registradas, 11,2% do total do país
- A produção catarinense de embarcações representava 8,3% da produção nacional (PIA/IBGE, 2010)
- O setor náutico gerava pouco mais de 4 mil empregos diretos no estado
- O Valor Adicionado Fiscal do setor era de R$ 96,5 milhões, apenas 0,08% do VAF catarinense
- As exportações do setor somavam pouco mais de US$ 320 mil, contra US$ 31 milhões em importações
Agora compare com 2026:
| Indicador | 2010 / 2011 | 2026 |
|---|---|---|
| Empresas do setor náutico em SC | 94 | 1.028 |
| Participação na produção nacional | 8,3% | cerca de 65% |
| Empregos diretos no setor náutico | pouco mais de 4 mil | parte dos 250 mil da Economia do Mar |
| Exportações do setor | US$ 320 mil | 68% das exportações brasileiras de embarcações de lazer |

Hoje, Itajaí concentra 165 empresas, enquanto Florianópolis, São José, Palhoça e Biguaçu somam 285, cerca de 30% do total catarinense. São 50 mil embarcações de esporte e recreio registradas no estado.
Em pouco mais de uma década, o número de empresas foi multiplicado por dez e a participação na produção nacional saltou de 8,3% para cerca de 65%. Poucos setores da economia brasileira mostram uma transformação dessa magnitude.
A economia do mar catarinense em números oficiais
Aqui os dados vêm do informativo Economia do Mar em Santa Catarina, publicado em fevereiro de 2026 pela Seplan, a Secretaria de Estado do Planejamento, com base na RAIS e no Novo Caged do Ministério do Trabalho.
O tamanho atual
- A Economia do Mar sustenta 250 mil profissionais com carteira assinada em Santa Catarina
- Isso equivale a 8,5% de todos os trabalhadores formais do estado
- Em 2024, eram 239.671 vínculos formais, distribuídos em mais de 23,5 mil estabelecimentos
- O conjunto movimenta R$ 1,158 bilhão em massa salarial por mês
O crescimento
- Entre 2014 e 2024, o emprego na Economia do Mar catarinense cresceu 25%, um acréscimo de quase 50 mil trabalhadores. No Brasil, o crescimento foi de cerca de 15%
- O número de estabelecimentos passou de 15.871 para 23.515, alta de 48%
- A massa salarial subiu 20% em relação a dezembro de 2014, quando era de R$ 964 milhões
- Entre março de 2025 e fevereiro de 2026, o setor abriu 5.881 novos postos formais, equivalentes a 13% de todo o saldo de empregos do estado. No Brasil, essas atividades responderam por 12%
- Só em fevereiro de 2026 foram 1.929 novos vínculos, ou 11% do total nacional dessas atividades
Onde estão os empregos
A Economia do Mar catarinense é mais industrial que a média do estado. Enquanto a Indústria responde por 28% do emprego formal total de Santa Catarina, dentro da Economia do Mar ela chega a 44,5%. Os Serviços vêm em seguida, com 36,8%, seguidos por Comércio (12,3%), Construção (5,1%) e Agropecuária (1,2%).
Nos doze meses encerrados em fevereiro de 2026, os grupos que mais criaram vagas foram:
- Armazenamento, carga e descarga: +1.744 postos
- Manutenção e reparação de máquinas e equipamentos: +1.206
- Fabricação de outros produtos alimentícios: +967
- Serviços de arquitetura e engenharia: +965
- Construção de embarcações: +109
Onde Santa Catarina lidera o Brasil
Dentro dos 30 grupos da classificação CNAE que compõem a Economia do Mar, o estado aparece em:
- 1º lugar nacional em Pesca, concentrando 45% dos empregos formais do país nesse grupo, e em Preservação do pescado e fabricação de produtos do pescado, com 27%
- 2º lugar em Construção de embarcações, Fabricação de motores, bombas e compressores (22% dos vínculos nacionais), Fabricação de aparelhos e instrumentos de medida e Fabricação de artefatos para pesca e esporte
- 3º lugar em Armazenamento, carga e descarga, Atividades auxiliares dos transportes aquaviários e Outros transportes aquaviários
No ranking geral por número de empregos na Economia do Mar, Santa Catarina ocupa o 7º lugar entre os entes federativos. Com 5% dos empregos do setor no país, o estado tem peso muito acima da sua população.
| Posição | Estado | Vínculos formais na Economia do Mar (2024) |
|---|---|---|
| 1º | São Paulo | 1,3 milhão |
| 2º | Rio de Janeiro | 542 mil |
| 3º | Minas Gerais | 519 mil |
| 4º | Distrito Federal | 373 mil |
| 5º | Paraná | 286 mil |
| 6º | Bahia | 255 mil |
| 7º | Santa Catarina | 239.671 |
A geografia do emprego

Três regiões concentram 61% dos empregos formais da Economia do Mar em Santa Catarina: a Grande Florianópolis (GRANFPOLIS, 28%), a região da Foz do Rio Itajaí (AMFRI, 18%) e o Nordeste catarinense (AMUNESC, 15%). Os municípios com mais trabalhadores nessas atividades são Florianópolis, Joinville e Itajaí, que juntos somam mais de 82 mil vínculos formais.
Vale registrar quem mais cresceu: entre 2014 e 2024, o emprego na Economia do Mar avançou 77% no Extremo Oeste (AMEOSC) e 73% na região de Laguna (AMUREL), mostrando que a atividade não fica restrita ao litoral tradicional.
Quem trabalha no setor
- Micro e pequenas empresas geraram 65% das novas vagas nos últimos doze meses. Elas representam 98,3% dos estabelecimentos da Economia do Mar na Indústria e na Construção
- Entre os novos contratados, 51% são homens e 49% mulheres. No estoque total, a relação é de 63% e 37%, ainda assim mais equilibrada que a média nacional, de 70% e 30%
- A escolaridade subiu: 53% dos trabalhadores têm ensino médio completo e 20% têm ensino superior. Em 2014, esses percentuais eram de 46% e 16%
O Brasil visto de cima: a frota nacional
Os dados de frota são da Marinha do Brasil, órgão responsável pelo registro das embarcações no país:
- 1,14 milhão de embarcações ativas foram registradas entre 1995 e 2025
- O 8º Distrito Naval, que cobre Paraná, São Paulo e o sul de Minas Gerais, concentra 427 mil embarcações, ou 37% de toda a frota nacional
- São Paulo sozinho tem 240.981 embarcações registradas, cerca de 24% do total do país
Para dimensionar o salto, o Relatório Náutico da Indústria Brasileira de 2012 estimava a frota de esporte e recreio acima de 16 pés em cerca de 70 mil embarcações. A produção se concentra no Sul e o consumo no Sudeste, e é essa geografia que explica boa parte da logística do setor.
O turismo náutico entra na conta
Barco parado não gera economia. O que transforma frota em renda é o uso.
São Paulo colocou isso em número: o Programa de Turismo Náutico do governo paulista tem a meta de elevar a movimentação do setor de R$ 6,3 bilhões para R$ 21 bilhões até 2033, com a previsão de 60 estruturas públicas de apoio à navegação no mesmo período.
O mercado responde. Na edição de 2025 do São Paulo Boat Show foram 750 embarcações negociadas, alta de 7,1% sobre as 700 do ano anterior, com 120 marcas, 170 barcos expostos e 40 mil visitantes.
O número que ainda falta: o PIB do Mar
Apesar de todos esses dados, o Brasil ainda não tem uma medida oficial do peso da economia do mar no PIB. Isso está mudando.
Um grupo técnico coordenado pela Secretaria Nacional de Planejamento do Ministério do Planejamento e Orçamento, em parceria com a Coordenação de Contas Nacionais do IBGE, concluiu a Metodologia para a Mensuração da Economia do Mar no Brasil, aprovada pela Comissão Interministerial para os Recursos do Mar em outubro de 2025. O próximo passo é a aplicação pelo IBGE e a divulgação dos primeiros resultados.
Quando esse número sair, o setor deixa de depender de estimativas e passa a ter estatística oficial. É a diferença entre argumentar e comprovar.
Os desafios que estão na mesa
A reforma tributária. A transição pode elevar a carga sobre o setor, e a janela de habilitação ao fundo de compensação fecha em dezembro de 2028. É o assunto mais urgente da indústria hoje.
A falta de mão de obra qualificada. O setor cresce mais rápido do que consegue formar gente. Faltam profissionais de laminação, mecânica, elétrica, marcenaria e operação de marina. Não é problema novo: já em 2014, o estudo do Sebrae apontava a falta de qualificação como um dos principais entraves ao crescimento, ao lado do déficit de infraestrutura e da morosidade no licenciamento de píeres e marinas. A ACATMAR mantém programas de capacitação e parceria com o IFSC na implantação da Escola do Mar.
A transição tecnológica. O Plano Tecnológico do Setor Náutico de Santa Catarina, construído com metodologia de foresight e princípios de economia circular, aponta o caminho: descarbonização, automação, motores híbridos, combustíveis de baixa emissão, eletrificação e embarcações autônomas. O documento destaca ainda a valorização do dólar como fator que favorece a competitividade das exportações náuticas catarinenses, ampliando mercados na Europa, na América do Norte e no Oriente Médio.
O que os números dizem, no fim das contas
Some tudo: 1,14 milhão de embarcações registradas no país, 250 mil pessoas empregadas só na economia do mar catarinense, mais de 23 mil estabelecimentos e R$ 1,158 bilhão de massa salarial por mês em um único estado, 1.028 empresas náuticas onde havia 94 há pouco mais de uma década, e uma cadeia de oito indústrias diferentes por trás de cada casco.
Na avaliação da ACATMAR, o potencial de crescimento segue expressivo, e a economia azul catarinense pode avançar cerca de 10% ao ano, desde que o estado continue investindo em infraestrutura, qualificação e incentivo ao setor.
Nada disso é luxo. É indústria, é emprego, é imposto e é desenvolvimento. Da próxima vez que alguém disser que barco é coisa de rico, mostre a conta.
Fontes
Os dados desta reportagem foram reunidos a partir de:
- SEPLAN/SC, Secretaria de Estado do Planejamento de Santa Catarina. Economia do Mar em Santa Catarina, fevereiro de 2026, com base na RAIS e no Novo Caged do Ministério do Trabalho e Emprego
- SEBRAE/SC e Governo do Estado de Santa Catarina. Estudo Setorial da Indústria Catarinense: Náutico, programa Nova Economia@SC, com dados da RAIS, IBGE e AliceWeb
- Marinha do Brasil: registro e distribuição da frota nacional
- MPO e IBGE: Metodologia de Mensuração da Economia do Mar no Brasil, aprovada pela CIRM em outubro de 2025
- ACATMAR, Associação Náutica Brasileira: empregos gerados por embarcação, estrutura da cadeia produtiva e projeção de crescimento da economia azul catarinense
- Plano Tecnológico do Setor Náutico de Santa Catarina: tendências tecnológicas e economia circular
- Governo do Estado de São Paulo: Programa de Turismo Náutico
- ICOMIA, International Council of Marine Industry Associations: dados do mercado mundial
- Dados do setor náutico catarinense divulgados pela imprensa especializada
Esta reportagem é atualizada conforme novos dados oficiais são divulgados. Se você trabalha com pesquisa, imprensa ou política pública e precisa de informações do setor, fale com a gente.
Por: Redação Mundo Mar
Foto: Foto e infográfico: Mundo Mar







