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O que está por trás de um barco: os números da cadeia produtiva que move a economia do mar

Cada embarcação de médio e grande porte gera, em média, 4 empregos diretos e 8 indiretos. Reunimos os dados oficiais da Marinha do Brasil, da Seplan/SC, do Sebrae, do IBGE e da ACATMAR para mostrar a economia inteira que existe atrás de um casco, e como Santa Catarina saiu de 94 empresas náuticas para mais de mil em pouco mais de uma década.

O que está por trás de um barco: os números da cadeia produtiva que move a economia do mar
Foto: Foto e infográfico: Mundo Mar

Quando alguém olha para um barco atracado numa marina, costuma ver duas coisas: lazer e luxo. É a leitura mais comum e também a mais incompleta. Por trás daquele casco existe uma cadeia produtiva que envolve indústria química, metalurgia, marcenaria fina, eletrônica embarcada, engenharia naval, logística, turismo e serviço especializado.

Essa é a tese que a ACATMAR, a Associação Náutica Brasileira, defende há anos: o setor náutico não é um bem de luxo, é uma cadeia econômica que gera emprego, renda, turismo e desenvolvimento. A melhor forma de provar isso é com número.

Reunimos aqui, em um só lugar, os dados oficiais mais atuais do setor, cruzando o informativo da Secretaria de Estado do Planejamento de Santa Catarina, o estudo setorial do Sebrae, os registros da Marinha do Brasil, a metodologia do PIB do Mar do IBGE e os levantamentos da própria ACATMAR. É material de consulta, feito para ser usado por quem precisa defender o setor com dado na mão.

Um barco não é um produto, é a montagem de oito indústrias

Construir uma embarcação de médio ou grande porte significa reunir, sob o mesmo teto, fornecedores de setores que quase nunca aparecem associados à náutica:

1. Motores e transmissão: motores de popa, de centro e diesel, eixos e sistemas de direção
2. Sistemas e tanques: geradores, baterias, combustível, água e tratamento
3. Cabines e acabamento: marcenaria, móveis planejados, revestimentos e colchoaria
4. Salão e interiores: cozinha, estofados, pisos, vidros e climatização
5. Flybridge e eletrônica: navegação, radar, som, antenas e iluminação LED
6. Estrutura e casco: fibra de vidro, resinas, compósitos e núcleos estruturais
7. Convés e design: teak, inox, guarda-corrimãos, ferragens e estilização
8. Pintura e revestimentos: gel coat, pintura, películas e proteção UV

Esquema em corte: onde fica cada uma das oito frentes dentro de uma embarcação. Infográfico: Mundo Mar
Esquema em corte: onde fica cada uma das oito frentes dentro de uma embarcação. Infográfico: Mundo Mar

Um estaleiro é, na prática, um integrador de cadeias. E é por isso que o número seguinte importa tanto.

Quantos empregos gera um barco

Cada embarcação de médio e grande porte gera, em média, 4 empregos diretos e 8 empregos indiretos, segundo levantamento da ACATMAR.

Ou seja, para cada posto de trabalho dentro do estaleiro, outros dois se abrem fora dele: no fornecedor de inox, na marcenaria, na loja de eletrônica náutica, no transporte, na marina que vai receber aquele barco e no serviço que vai mantê-lo pelos próximos vinte anos. São doze famílias por casco que sai da fábrica.

A virada de Santa Catarina: de 94 para mais de mil empresas

Este é o dado mais impressionante desta reportagem, e ele só aparece quando se compara o passado com o presente.

O Estudo Setorial da Indústria Catarinense, produzido pelo Sebrae/SC dentro do programa Nova Economia@SC, retratou o setor náutico do estado no início da década de 2010. O quadro era este:

Agora compare com 2026:

Indicador2010 / 20112026
Empresas do setor náutico em SC941.028
Participação na produção nacional8,3%cerca de 65%
Empregos diretos no setor náuticopouco mais de 4 milparte dos 250 mil da Economia do Mar
Exportações do setorUS$ 320 mil68% das exportações brasileiras de embarcações de lazer
A virada da náutica catarinense: de 94 para 1.028 empresas em pouco mais de uma década. Infográfico: Mundo Mar
A virada da náutica catarinense: de 94 para 1.028 empresas em pouco mais de uma década. Infográfico: Mundo Mar

Hoje, Itajaí concentra 165 empresas, enquanto Florianópolis, São José, Palhoça e Biguaçu somam 285, cerca de 30% do total catarinense. São 50 mil embarcações de esporte e recreio registradas no estado.

Em pouco mais de uma década, o número de empresas foi multiplicado por dez e a participação na produção nacional saltou de 8,3% para cerca de 65%. Poucos setores da economia brasileira mostram uma transformação dessa magnitude.

A economia do mar catarinense em números oficiais

Aqui os dados vêm do informativo Economia do Mar em Santa Catarina, publicado em fevereiro de 2026 pela Seplan, a Secretaria de Estado do Planejamento, com base na RAIS e no Novo Caged do Ministério do Trabalho.

O tamanho atual

O crescimento

Onde estão os empregos

A Economia do Mar catarinense é mais industrial que a média do estado. Enquanto a Indústria responde por 28% do emprego formal total de Santa Catarina, dentro da Economia do Mar ela chega a 44,5%. Os Serviços vêm em seguida, com 36,8%, seguidos por Comércio (12,3%), Construção (5,1%) e Agropecuária (1,2%).

Nos doze meses encerrados em fevereiro de 2026, os grupos que mais criaram vagas foram:

Onde Santa Catarina lidera o Brasil

Dentro dos 30 grupos da classificação CNAE que compõem a Economia do Mar, o estado aparece em:

No ranking geral por número de empregos na Economia do Mar, Santa Catarina ocupa o 7º lugar entre os entes federativos. Com 5% dos empregos do setor no país, o estado tem peso muito acima da sua população.

PosiçãoEstadoVínculos formais na Economia do Mar (2024)
São Paulo1,3 milhão
Rio de Janeiro542 mil
Minas Gerais519 mil
Distrito Federal373 mil
Paraná286 mil
Bahia255 mil
Santa Catarina239.671

A geografia do emprego

Vínculos formais na Economia do Mar por região de Santa Catarina, 2014 e 2024. Infográfico: Mundo Mar
Vínculos formais na Economia do Mar por região de Santa Catarina, 2014 e 2024. Infográfico: Mundo Mar

Três regiões concentram 61% dos empregos formais da Economia do Mar em Santa Catarina: a Grande Florianópolis (GRANFPOLIS, 28%), a região da Foz do Rio Itajaí (AMFRI, 18%) e o Nordeste catarinense (AMUNESC, 15%). Os municípios com mais trabalhadores nessas atividades são Florianópolis, Joinville e Itajaí, que juntos somam mais de 82 mil vínculos formais.

Vale registrar quem mais cresceu: entre 2014 e 2024, o emprego na Economia do Mar avançou 77% no Extremo Oeste (AMEOSC) e 73% na região de Laguna (AMUREL), mostrando que a atividade não fica restrita ao litoral tradicional.

Quem trabalha no setor

O Brasil visto de cima: a frota nacional

Os dados de frota são da Marinha do Brasil, órgão responsável pelo registro das embarcações no país:

Para dimensionar o salto, o Relatório Náutico da Indústria Brasileira de 2012 estimava a frota de esporte e recreio acima de 16 pés em cerca de 70 mil embarcações. A produção se concentra no Sul e o consumo no Sudeste, e é essa geografia que explica boa parte da logística do setor.

O turismo náutico entra na conta

Barco parado não gera economia. O que transforma frota em renda é o uso.

São Paulo colocou isso em número: o Programa de Turismo Náutico do governo paulista tem a meta de elevar a movimentação do setor de R$ 6,3 bilhões para R$ 21 bilhões até 2033, com a previsão de 60 estruturas públicas de apoio à navegação no mesmo período.

O mercado responde. Na edição de 2025 do São Paulo Boat Show foram 750 embarcações negociadas, alta de 7,1% sobre as 700 do ano anterior, com 120 marcas, 170 barcos expostos e 40 mil visitantes.

O número que ainda falta: o PIB do Mar

Apesar de todos esses dados, o Brasil ainda não tem uma medida oficial do peso da economia do mar no PIB. Isso está mudando.

Um grupo técnico coordenado pela Secretaria Nacional de Planejamento do Ministério do Planejamento e Orçamento, em parceria com a Coordenação de Contas Nacionais do IBGE, concluiu a Metodologia para a Mensuração da Economia do Mar no Brasil, aprovada pela Comissão Interministerial para os Recursos do Mar em outubro de 2025. O próximo passo é a aplicação pelo IBGE e a divulgação dos primeiros resultados.

Quando esse número sair, o setor deixa de depender de estimativas e passa a ter estatística oficial. É a diferença entre argumentar e comprovar.

Os desafios que estão na mesa

A reforma tributária. A transição pode elevar a carga sobre o setor, e a janela de habilitação ao fundo de compensação fecha em dezembro de 2028. É o assunto mais urgente da indústria hoje.

A falta de mão de obra qualificada. O setor cresce mais rápido do que consegue formar gente. Faltam profissionais de laminação, mecânica, elétrica, marcenaria e operação de marina. Não é problema novo: já em 2014, o estudo do Sebrae apontava a falta de qualificação como um dos principais entraves ao crescimento, ao lado do déficit de infraestrutura e da morosidade no licenciamento de píeres e marinas. A ACATMAR mantém programas de capacitação e parceria com o IFSC na implantação da Escola do Mar.

A transição tecnológica. O Plano Tecnológico do Setor Náutico de Santa Catarina, construído com metodologia de foresight e princípios de economia circular, aponta o caminho: descarbonização, automação, motores híbridos, combustíveis de baixa emissão, eletrificação e embarcações autônomas. O documento destaca ainda a valorização do dólar como fator que favorece a competitividade das exportações náuticas catarinenses, ampliando mercados na Europa, na América do Norte e no Oriente Médio.

O que os números dizem, no fim das contas

Some tudo: 1,14 milhão de embarcações registradas no país, 250 mil pessoas empregadas só na economia do mar catarinense, mais de 23 mil estabelecimentos e R$ 1,158 bilhão de massa salarial por mês em um único estado, 1.028 empresas náuticas onde havia 94 há pouco mais de uma década, e uma cadeia de oito indústrias diferentes por trás de cada casco.

Na avaliação da ACATMAR, o potencial de crescimento segue expressivo, e a economia azul catarinense pode avançar cerca de 10% ao ano, desde que o estado continue investindo em infraestrutura, qualificação e incentivo ao setor.

Nada disso é luxo. É indústria, é emprego, é imposto e é desenvolvimento. Da próxima vez que alguém disser que barco é coisa de rico, mostre a conta.

Fontes

Os dados desta reportagem foram reunidos a partir de:

Esta reportagem é atualizada conforme novos dados oficiais são divulgados. Se você trabalha com pesquisa, imprensa ou política pública e precisa de informações do setor, fale com a gente.

Por: Redação Mundo Mar

Foto: Foto e infográfico: Mundo Mar

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